Conheça a incrível história de como a Marvel arriscou seus principais personagens para se salvar



Depois de vários anos com massivos prejuízos, a Marvel Comics chegava ao fundo do poço. Pode parecer loucura pensar na organização que conhecemos hoje vivendo uma situação de total desespero financeiro. Mas este era o desolador cenário em dezembro de 1996.

Para efeito de comparação, naquela época a ações da Marvel Comics, que chegaram a valer U$ 35,75 em 1993, tiveram uma intensa queda, estacionando em desvalorizados U$ 2,38 por ação. O que gerou uma dívida acumulada de U$ 610 milhões.

Mas como a gigante dos quadrinhos chegou neste ponto? Tudo começou em 1989, quando a empresa foi adquirida por U$ 82,5 milhões pelo empresário especialista em transformar corporações em risco em grandes negócios Ronald Perelman. Que logo ele adotou a perigosa estratégia de aumentar o valor das HQ's e lançar vários novos títulos com os heróis da Casa de Ideias.

Ronald Perelman


Num primeiro momento a estratégia deu muito certo. Havia um mercado especulativo que consideram quadrinhos um bom investimento, baseado na valorização de edições antigas vendidas por milhões de dólares. Assim, os fãs compravam várias cópias do mesmo título, apostando numa possível valorização a médio ou longo prazo.

O problema é que este comportamento gerou uma bolha especulativa. Criando desvalorização das milhares de cópias disponíveis no mercado. Ou seja, em pouco mais de dois anos, a conduta destes fãs/investidores de quadrinhos mudou e o número de edições vendidas mensalmente caiu drasticamente.

Além disso, a estratégia de volume de títulos criada por Perelman, acabou baixando a qualidade das histórias criadas pela Marvel. A combinação destes dois pontos foi devastadora para a casa das fantásticas criações de Jack Kirby e Stan Lee.

Com a operação de quadrinhos gerando copiosos prejuízos, a Casa de Ideias se voltou para os brinquedos e colecionáveis para tentar sobreviver. Mas a estratégia não trouxe os resultados esperados e por volta de 1995 a situação se tornou insustentável. Naquele ano fiscal, a editora teve um prejuízo de U$ 48 milhões e uma dívida acumulada de astronômicos U$ 581 milhões.

Neste momento, Ronald Perelman percebeu que o futuro não estava somente nos quadrinhos, mas nas telas de cinema. Para tornar isso realidade, tentou fundir a Marvel com a empresa de brinquedos Toy Biz. Contudo, os frustrados detentores das ações bloquearam o plano.

A solução foi apresentar a falência, conseguindo assim controle total da empresa e podendo tomar decisões estratégicas sem aprovação dos acionistas. Porém, o esquema não deu certo. E após dois anos nos tribunais, a turbulenta história de Perelman com todo poderoso da Marvel havia chegado ao fim.

Os novos donos da companhia responsável pelo Homem-Aranha e outros fantásticos personagens eram dois executivos da Toy Biz, chamados Isaac Perlmutter e Avi Arad. O estilo gerencial dos dois era completamente diferente do dono anterior. Mas compartilhavam um objetivo em comum: filmes.

Eles sabiam que o futuro da editora estava nos cinemas. Porém, sem muito dinheiro em caixa, a empresa precisou leiloar os direitos cinematográficos de seus principais personagens para Hollywood. Os executivos de cinema, sabendo da situação da organização, forçaram a Marvel em acordos extremamente desfavoráveis, adquirindo direitos por valores ultra baixos.

Assim, os longas da Marvel começaram a ser produzidos no fim dos anos 90 e início do anos 2000. Foram verdadeiros blockbusters. Blade, por exemplo, faturou U$ 70 milhões em bilheterias. Deste montante, sobraram apenas U$ 25.000 para a Marvel.



Já os dos primeiros filmes do Homem-Aranha acumularam inacreditáveis U$ 3 bilhões em faturamento. Mas só geraram U$ 62 milhões para a empresa. Ou seja, a casa responsável por criar os personagens tinha em suas mãos uma mina de ouro, mas estavam coletando apenas as sobras.



Apesar de receber apenas uma fração dos lucros, a Marvel procurou expandir este modelo de negócios. E em 2003 estava pronta para vender os direitos do Capitão América para a Warner e Thor para a Sony.

Foi aí que um visionário personagem entrou na jogada. David Maisel, um produtor de cinema e da Broadway, conseguiu uma reunião com Perlmutter e Arad para apresentar um plano audacioso: transformar a Marvel numa produtora de cinema.

David Maisel, o responsável pelo arriscado plano da Marvel


O cenário fazia todo o sentido. Não só a Marvel ficaria com todos os lucros, como também poderia fazer os personagens conviverem num único universo. O que repetiria uma fórmula de sucesso utilizada pela editora nos quadrinhos décadas antes, na era de ouro dos quadrinhos.

Em pouco tempo os donos da empresa foram convencidos. Mas precisavam do dinheiro para transformar a Marvel numa produtora. O que era extremamente complicado. Por isso, o acordo para a criação da Marvel Studios se tornou realidade apenas em 2005, quando os investidores foram convencidos de fazer um aporte de U$ 525 milhões para viabilizar a operação

Porém, havia uma cláusula colateral para garantir o empréstimo: os direitos cinematográficos de 10 dos principais personagens da editora, entre eles Thor, Homem de Ferro, Pantera Negra, Capitão América e Hulk.

A Marvel Studios aceitou o arriscado acordo e chamou um presidente que pudesse transformar a visão que David Maisel havia apresentado em realidade. O escolhido foi um declarado apaixonado pela história e personagens da Casa de Ideias, chamado Kevin Feige.

Kevin Feige, o presidente da Marvel Studios


Assim, em 2 de maio de 2008 o primeiro filme dos estúdios da Marvel chegou aos cinemas. Homem de Ferro se tornou um blockbuster imediato. E o resto? Bem, o resto você já sabe...

» Quer receber novidades como essa e muito mais no seu e-mail? CLIQUE AQUI e assine a newsletter quinzenal do Supervault.

Daniel Rost Dreyer

Sócio fundador da Gampi. Publicitário, empresário e entusiasta de cultura geek. May the Force be with you. Always.

Nenhum comentário:

Postar um comentário