Darth Vader, o vilão cafajeste



Crônica por Daniel Rost Dreyer

O cafajeste é um patrimônio nacional. Mesmo numa época que voga o politicamente correto, este personagem sem refinamento no trato social, atrevido e provocador ainda tem seu espaço no senso coletivo tupiniquim. As mulheres podem negar. Os homens podem dizer que não o admiram. Mas no fundo, todos nutrem um misterioso carinho por essa criatura que mistura equilibradamente charme com canalhice.

É difícil dizer o motivo. Mas o povo canarinho realmente ama um cafajeste. E tem orgulho da origem naturalmente brasileira deste ser. Por isso, é impossível imaginar este vil desordeiro em outras plagas. Mas isso não impediu um pai de tentar convencer o seu filho do contrário.

Pai, o Darth Vader é mau! – esbravejou Lucas, no alto de seus cinco anos, ao assistir primeiro filme de Star Wars com o seu pai.

Já fazia tempo que Paulo tentava convencer o seu rebento a gostar da sua franquia favorita. Mas o menino só queria saber de futebol. Com muita negociação e prometendo levar o garoto a um jogo do seu time favorito, conseguiu marcar uma sessão para assistir ao longa criado por George Lucas.

Havia se preparado para o momento. Mostrou fotos dos personagens. E quem diria! Lucas havia gostado daquela poderosa figura de capa e máscara preta. Até perguntou quem era. Paulo contou orgulhoso sobre o impressionante protagonista. Só havia esquecido de comentar que ele era um vilão. E agora? Teria perdido o menino para sempre?

Filho, eu sei que ele é mau. Mas ele é poderoso. Forte. Consegue mover as coisas com poder da mente. Já imaginou? Além disso, tem um sabre de luz vermelho irado! – tentou argumentar.

Pai, ele acabou de quebrar o pescoço daquele tio! – observou o menino, descrevendo a cena de abertura do filme.

Eu sei filho. Mas tem muita coisa pra acontecer ainda. Ele é legal. Você vai gostar dele. Dá mais uma chance. – apelou o pai, vendo a fraqueza do próprio argumento enquanto observava o filho se levantar e correr para o pátio com a bola embaixo do braço.

Naquele momento, o destroçado pai se sentou na ponta do sofá contemplando o fracasso e questionando os seus interesses. Afinal, como querer convencer o seu filho a gostar de alguém como Darth Vader? Aonde ele estava com a cabeça? Lucas era uma criança doce e sem maldade. E ele tentou fazê-lo admirar a personificação vil da canalhice.

Paulo fitou o próprio desespero por mais alguns instantes enquanto o filme continuava a rodar na televisão. Até que uma cena, que mostrava o garboso e amedrontador bandido com o dedo em riste no rosto da princesa, prendeu a sua atenção. E pensou: “Ah. O Lucas ainda não sabe o que é bom.

Daniel Rost Dreyer

Sócio fundador da Gampi. Publicitário, empresário e entusiasta de cultura geek. May the Force be with you. Always.

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